E se Camões não tivesse existido?*

Acordei com réstias de um sonho estranho. Uma palavra parecia continuar agarrada à minha memória: poeta. Com esta palavra a martelar na minha cabeça, lembrei-me de todos os poetas que costumam habitar nas estantes da minha biblioteca poético-imaginária.

Poetas: recorro a eles, quase sempre, em momentos verdadeiramente críticos.

Poemas: nos versos dum poema consigo encontrar o melhor caminho de volta a casa.

Passo a explicar.

Quando precisei de um amigo, Alexandre O’Neill segredou-me que amigo é “Um coração a pulsar na nossa mão!” e nunca mais me senti só.

Em todos os momentos que duvidei de mim e tive vontade de desistir, Miguel Torga disse-me “Recomeça… se puderes, sem angústia e sem pressa.”, lembra-te “És homem, não te esqueças! Só é tua a loucura, onde, com lucidez te reconheças…”. E, assim, arregacei as mangas e fui à luta, dono da minha própria vontade!

Sempre que ouvia o meu pai queixar-se de um simples pingo no nariz, ping, recitava-lhe num tom assaz cómico-dramático, como convinha à situação, o “Poema dos homens constipados”, de António Lobo Antunes, “Ai Lurdes, Lurdes fica comigo, não é o pingo de uma torneira.”

Agora já acreditam que tenho poemas para todos os gostos e ocasiões? O poema é a melhor panaceia e poupa-nos imenso na conta da farmácia. Não acreditam?

Nos momentos mais tristes, em que bate aquela saudade de quem já partiu, ergo os olhos ao céu e de mãos dadas com Eugénio de Andrade digo “Não me esqueci de nada, mãe. Guardo a tua voz dentro de mim. E deixo-te as rosas.”

Quando, na pausa para o café, assisto a verdadeiras novelas da vida real, em que os amores andam contrariados e até parece que os pares estão todos trocados, bastam uns pozinhos do “Poema da quadrilha”, de Carlos Drummond de Andrade, para apaziguar os corações desesperados e confortá-los com Deixa lá isso, também acontece aos outros, sabias que, “João amava Teresa que amava Raimundo que amava Joaquim que amava Lili que não amava ninguém.”?

E quando assisto ao telejornal, depois de ver tantas desgraças, em conversa com a minha tia, digo-lhe, às cavalitas das palavras de Vasco Graça Moura, “quando eu morrer segura a minha mão, põe os olhos nos meus se puder ser!”

 Agora, lembro-me de uma cena que vivi no verão passado, na festa da vila, no meio de uma dança, quis falar de amor ao meu par, recitar-lhe um soneto, mas não o consegui encontrar. Fiquei por minha conta e risco, tive de improvisar. Disse-lhe ao ouvido “O amor é como uma dor de barriga e tu és o meu comprimido!” Logo, o amor se tornou num autêntico fogo, pois foi impossível não sentir as marcas vermelhas que a bofetada dela me deixou na face esquerda. Bolas, onde estaria o tal soneto de amor quando um simples mortal precisava de fazer bonito junto da sua amada? Entretanto, a sua resposta continuava a ecoar na minha cabeça, Manuel, vai chatear o Camões! Camões? Mas quem é esse? Fui pesquisar e, rapidamente, apareceu a resposta no ecrã do meu telemóvel: “Palavra desconhecida”.

Conclusão, Camões não figura no meu depositário poético, a cativa deixou de ser cativa, a Leonor nunca mais saiu de casa, pois deixou de ser fermosa e de nada lhe servia a segurança.

Ufa… ainda bem que toda esta cena não passou de um sonho estranho, digo eu em voz alta, segurando o livro “Poesia Lírica”, de Luís de Camões, quase com um estatuto de relíquia, marcado pelas folhas já amareladas e verdadeiras testemunhas de muitas leituras e releituras, em diferentes momentos da minha vida.

Mudam-se os tempos, as vontades, os gostos, as opiniões, só não mudem os poetas!

Sofia Amélia

*in, Revista Porqu(L)ê, IX, abril de 2025, Celebrar Camões, pág.41

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