Gonzalo Moure – uma escrita comprometida!

Há escritores que não entram nos livros: entram-nos. Gonzalo Moure pertence a essa espécie rara de autores que não pedem licença ao leitor — sentam-se ao seu lado, olham na mesma direcção e começam a fazer perguntas difíceis com uma voz mansa.

Na literatura infantojuvenil de Moure não há pressa. Há caminho. Caminho feito de silêncios, de paisagens interiores, de crianças que pensam mais do que dizem e de adultos que, muitas vezes, chegam tarde à compreensão do mundo. Lê-se Moure como quem atravessa um território frágil: qualquer passo em falso pode partir algo essencial.

Os seus livros parecem simples à primeira vista, quase desarmados. Mas é um engano. São simples como são simples as perguntas fundamentais: quem somos? a quem pertencemos? o que fazemos com a dor dos outros? A escrita de Gonzalo Moure não subestima o leitor jovem; confia nele. E essa confiança é, talvez, o seu gesto mais radical.

Há na sua obra uma atenção ética constante: às desigualdades, à exclusão, à infância ferida, às identidades roubadas ou silenciadas. África, a guerra, a pobreza, o exílio, a perda — tudo isso aparece, mas nunca como cenário exótico nem como lição moral. Aparece como vida. Vida que dói, que resiste, que insiste em ser nomeada.

Os seus protagonistas — crianças e jovens quase sempre deslocados — não são heróis no sentido clássico. São personagens que aprendem devagar, que erram, que hesitam. E é nessa hesitação que o leitor cresce. Moure escreve a partir da escuta: escuta das pessoas reais, das histórias esquecidas, dos lugares onde a literatura raramente se demora.

A linguagem acompanha essa ética. É contida, limpa, precisa. Não há pirotecnia verbal, mas há imagens que ficam, frases que se colam à memória como poeira de estrada. Uma poética do essencial, onde cada palavra parece ter sido escolhida depois de muitas terem sido recusadas.

Ler Gonzalo Moure em idade de formação é aprender que a literatura não serve apenas para entreter ou consolar. Serve para acordar. Para criar desconforto fértil. Para nos obrigar a olhar de frente aquilo que preferiríamos ignorar — e a fazê-lo com humanidade.

Talvez por isso os seus livros não se esgotem quando se fecha a última página. Continuam a trabalhar dentro de nós, como perguntas que não querem resposta imediata. Como se a infância, afinal, não fosse um lugar de inocência, mas de lucidez.

E Moure escreve a partir daí: desse ponto exacto onde a literatura para jovens deixa de ser “para” e passa a ser “com”. Com respeito. Com risco. Com verdade.

Livros em destaque

Se a primeira impressão da obra de Gonzalo Moure é a de um território ético e sensível, os seus livros concretos são como marcos dessa geografia — cada um assinalando uma pergunta essencial, nunca totalmente resolvida.

Palavras de Caramelo é, talvez, o mais emblemático. Um livro onde a linguagem é literalmente sobrevivência. Kori, um rapaz surdo que vive num campo de refugiados no Saara, comunica através de gestos e de um dromedário que escuta melhor do que muitos humanos. Aqui, Moure escreve sobre a palavra como abrigo e resistência. Não há sentimentalismo: há dignidade. E uma ideia poderosa — a de que a comunicação não depende apenas da voz, mas do olhar atento ao outro.

Em O Síndrome de Mozart, o autor desmonta a obsessão contemporânea pela genialidade precoce. A música surge como metáfora de uma pressão adulta que esquece a fragilidade da infância. É um livro incómodo, no melhor sentido: questiona expectativas, denuncia silêncios e lembra que o talento, quando não é cuidado, pode tornar-se violência disfarçada de elogio.

Já em Tuva Tem Medo (ou Tuva tiene miedo), Moure aborda o medo como matéria literária legítima. Não o medo espectacular, mas o medo miúdo, persistente, que acompanha o crescimento. Tuva não é uma heroína que vence o medo; é uma criança que aprende a viver com ele. E isso faz toda a diferença. O livro ensina, sem nunca o dizer, que amadurecer não é eliminar o medo, mas reconhecê-lo.

Os Cavalos do Meu Tio desloca-nos para um universo rural e afectivo, onde os animais funcionam como espelhos emocionais. Mais uma vez, a relação entre adultos e crianças é central — e mais uma vez, os adultos surgem imperfeitos, incompletos, humanos. Moure escreve sobre heranças invisíveis: gestos, silêncios, modos de estar no mundo que passam de geração em geração.

Em O Beijo do Saara, regressa África, não como cenário exótico, mas como espaço de vínculo e responsabilidade. O deserto, recorrente na sua obra, é menos um lugar físico do que um estado de exposição: ali, tudo é essencial, tudo é verdadeiro. O amor, a perda e a memória cruzam-se numa narrativa que exige do leitor tempo e entrega.

Mesmo quando escreve para leitores mais novos, como em Maíto Panduro, Moure mantém intacta a sua ética literária. O humor existe, sim, mas nunca esvazia a complexidade do mundo. Rir, nestes livros, é também uma forma de resistência.

O que une estes títulos — e tantos outros — não é o tema, nem a idade recomendada, mas uma mesma confiança radical no leitor. Gonzalo Moure escreve como quem acredita que a infância e a juventude são lugares de pensamento profundo. Os seus livros não explicam o mundo: colocam-no nas mãos do leitor e dizem, em silêncio, agora pensa tu.

Talvez seja por isso que a sua obra não envelhece. Porque não fala de modas nem de soluções rápidas, mas de questões que continuam à espera — em cada nova geração — de serem lidas, sentidas e, sobretudo, escutadas.

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