
Todas as cores num Sítio só
No Brasil, comemorou-se recentemente o Dia Nacional do Livro Infantil, também conhecido como Dia de Lobato Monteiro. A data é celebrada em homenagem ao autor, nascido a 18 de Abril de 1882. A sua obra é parte fundamental do património literário brasileiro e abrange não só a literatura infantil, como também a escrita de contos para adultos e crónicas.
O escritor tornou-se conhecido, sobretudo, pelo universo fantástico que criou em O Sítio do Pica-Pau Amarelo, obra composta por 23 livros, escritos entre 1920 e 1947, que se afirmou, numa época em que a maioria deste género literário vinha de fora do país.
A HISTÓRIA
O palco principal é, como se adivinha pelo nome, o Sítio do Pica-Pau Amarelo, inspirado na fazenda onde o autor viveu em criança. Este fascinante lugar dá-nos a conhecer os protagonistas: Dona Benta, os seus netos Narizinho e Pedrinho, a empregada Anastácia, o Tio Barnabé, Emília, a boneca de pano, o Visconde, o Saci e a Cuca.
As histórias deambulam entre a fantasia e o realismo mágico, onde personagens reais convivem naturalmente com outras do folclore brasileiro, da mitologia grega, e ainda de outros clássicos infantis, como Peter Pan ou Alice no País das Maravilhas.
Os livros abordam, não só, as aventuras e vivências das personagens principais, como também nos oferecem relatos de histórias alternativas. Há volumes dedicados às narrações da Dona Benta, há outros que abordam a mitologia grega e outros ainda que ensinam matemática, aritmética, ou astronomia, demonstrando, assim, o carácter pedagógico da obra.
PERSONAGENS
Dona Benta
Dona Benta é a proprietária do Sítio do Pica-Pau Amarelo. É uma viúva amável, com quem os netos — Narizinho e Pedrinho — se sentem seguros: ela abraça tanto o mundo fantástico como o real, ensinando que pode haver harmonia entre ambos. É a voz da sabedoria, que explica o mundo aos mais novos, abordando temas como ciências, história ou geografia, de forma simples e acessível, aguçando, assim, a curiosidade das crianças.
Narizinho
Narizinho, alcunha da pequena Lúcia, é a protagonista original, que dá nome ao primeiro livro — A Menina do Narizinho Arrebitado — ponto de partida para a criação do universo de Monteiro Lobato. Neta de Dona Benta, representa a curiosidade e a imaginação infantil; é através desta personagem que o leitor é levado a conhecer outros lugares mágicos dentro do Sítio, como o Reino das Águas Claras. É a dona da boneca Emília.
Pedrinho
Pedrinho, neto de Dona Benta, é um rapaz da cidade que passa as férias no Sítio, com a avó e a prima Narizinho. Representa o espírito aventureiro de quem não tem medo de enfrentar perigos reais. Atua como ligação entre o mundo urbano e a magia rural do Sítio. É conhecido por usar uma fisga para atirar pedras.
Tia Anastácia
É a cozinheira e empregada do Sítio e personifica a sabedoria folclórica brasileira. É assustadiça e muito bondosa, sendo considerada uma segunda avó para as crianças, a quem conta histórias assombrosas e lendas do folclore brasileiro. Foi ela quem fez a boneca Emília, com retalhos de pano. A personagem foi inspirada em Anastácia, uma mulher que trabalhou como cozinheira e ama na casa do autor.
Emília
É a boneca de pano de Narizinho, que ganhou vida depois de engolir um comprimido falante. É independente, inquisitiva, muito atrevida e dona de uma personalidade forte. Por vezes, demonstra um egoísmo infantil, legitimado pela sua natureza de boneca que não precisa de se reger pelas normas sociais impostas às crianças. Simboliza o pensamento crítico do autor, sendo utilizada para expressar pontos de vista sobre o mundo, de forma irónica e satírica.
Saci Pererê
O Saci apresenta-se como o principal representante da cultura folclórica brasileira. Usa um gorro vermelho, fuma cachimbo e só tem uma perna. Conecta as crianças com os mistérios da natureza. É uma figura astuta e malandra, famosa por pregar partidas, como trocar o sal pelo açúcar, na cozinha da Tia Anastácia. É retratado como um ser mágico, que vive no limite entre a realidade do Sítio e o mundo encantado da floresta.
Visconde de Sabugosa
O Visconde foi criado pela Tia Anastácia, a partir de uma maçaroca de milho, para ser oferecido ao Pedrinho. Ganhou vida após ficar esquecido na biblioteca da Dona Benta e absorver o conhecimento dos livros que lá havia. Dono de um vasto saber enciclopédico, funciona como o consultor intelectual do Sítio. É um erudito, filósofo e cientista, sendo frequentemente consultado para explicar fenómenos de naturezas diversas. Embora seja um génio, é tímido, frágil e muito ingénuo, sendo constantemente manipulado e provocado pela boneca Emília. Usa uma cartola, um monóculo e veste um fraque verde, o que lhe confere a aparência de nobre intelectual.
Cuca
A Cuca, personagem icónica da obra, revela-se como a principal antagonista mágica, representando o perigo e o mistério da floresta, em contraste com a segurança e o afeto do Sítio. É descrita como uma bruxa vaidosa e feroz, que vive numa caverna. No folclore tradicional é lembrada como uma velha assustadora, com cabeça de jacaré. O escritor, no livro O Saci, veio descrevê-la como um jacaré fêmea bípede, de longos cabelos loiros e voz estridente, sendo essa, também, a versão que integra as séries de televisão de 1997 e 2001. Mas, embora perversa, a Cuca proporciona, também, momentos de humor, já que os seus planos resultam sempre em fracasso.
Tio Barnabé
O Tio Barnabé é um homem idoso e sábio, conselheiro do Sítio do Pica-Pau Amarelo. Trabalha na propriedade da Dona Benta, representando o conhecimento folclórico e a ligação com a natureza. Contador de histórias, conhece tudo sobre a floresta, superstições e lendas brasileiras. É, ainda, um especialista em caçar sacis, sendo uma pessoa muito estimada por todos.
PARA A TELA E PARA A TELINHA
O livro ou o filme?
“O filme não se compara ao livro”; “O livro é melhor, deixa mais espaço à imaginação”. Estas são frases que se ouvem habitualmente, sugerindo a elevação da literatura a um patamar superior ao da 7ª arte. Há quem discorde, felizmente, lembrando que estamos a lidar com duas formas de arte distintas, cada uma com o seu quê de magia. Ainda que uma se tenha inspirado na outra, com maior ou menor rigor, após a separação, a obra audiovisual torna-se dona de si. Traz novas cores, novos sons, novas vivências, sustentadas nas primeiras palavras escritas pelo autor.
Com o audiovisual, as histórias do Sítio do Pica-Pau Amarelo continuam a viver no imaginário de todos, estabelecendo-se como obras-primas incontornáveis da cultura brasileira.
Os filmes
- O Saci, 1951 — Foca-se na história de Pedrinho, que pretende capturar o Saci e prendê-lo numa garrafa. O filme foi considerado a primeira grande produção infantil do cinema brasileiro; em 1954 veio a ganhar o Prémio Saci, que distingue os melhores filmes brasileiros da década de 1950.
- O Sítio do Pica-Pau Amarelo, 1973 — O filme narra a chegada das personagens dos contos de fadas, com destaque para o Capitão Gancho, que tenta invadir o Sítio. Esta obra apresenta um estilo visual característico do cinema brasileiro dos anos 70, marcado pelo exagero da teatralidade e da estética.
As séries de televisão
- A primeira adaptação ocorreu em 1952, sendo apresentada em direto, em forma de teleteatro.
- Sítio do Pica-Pau Amarelo, 1977-1986 — talvez a versão mais presente na memória dos portugueses, tendo sido exibida na RTP entre 1981 e 1989. Surgiu na sequência de um grande interesse em produzir uma novela direcionada ao público infantojuvenil. Valorizou os aspetos educativos, respeitando o carácter didático da obra escrita, sem descurar o entretenimento. Em 1979, a série foi reconhecida pela UNESCO como melhor programa infantil do ano.
- Sítio do Pica-Pau Amarelo, 2001-2007 — esta versão, mais moderna (a Dona Benta até tem Internet em casa), chegou ao pequeno ecrã apresentando já produtos de comercialização e promoção da marca do Sítio do Pica-Pau Amarelo. Nesta versão, as personagens Dona Benta e Tia Anastácia surgem mais jovens.
- Em Outubro de 2024, estreou uma nova série, produzida pelo +SBT em parceria com a Disney, estando disponível nessas plataformas. A série privilegia o aspeto lúdico e educativo da obra de Monteiro Lobato.
- Destaque, ainda, para a banda desenhada criada em 1979, e para uma série de animação que coloriu os sonhos dos mais pequenos entre 2012 e 2016.

O QUE NOS UNE E O QUE NOS SEPARA
Que diferenças podemos encontrar entre a produção literária e a obra audiovisual? E semelhanças? Vejamos.
Diferenças
- Os livros refletem, em parte, o contexto social da época e, ainda hoje, alguns trechos são considerados racistas e retrógrados. Nas adaptações audiovisuais, procurou-se atenuar esses aspetos, privilegiando a magia e a aventura, sem perder o foco na cultura e no folclore.
- Nas séries, sobretudo as mais recentes, foram criadas novas histórias, que não apareciam nos livros.
- No que se refere às personagens, encontramos na produção escrita uma Emília mais rústica e mais artesanal: é uma boneca de pano, mais pequena que os humanos, que não come (afinal é uma boneca). A televisão oferece-nos, contudo, uma versão mais humanizada, expressiva e com maior interação com os outros. A vilã Cuca também é uma referência; nos livros revela-se uma personagem secundária, baseada na figura popular de uma velha com cabeça de jacaré, no entanto, salta para o ecrã como a principal antagonista dos heróis da história. A sua figura também sofre alterações, sendo agora um jacaré fêmea, bípede, com uma longa cabeleira loira.
- O contexto temporal também se altera: a ruralidade do início do século XX, que encontramos nos livros, dá lugar, na televisão, a um tempo moderno, de novas tecnologias. Há um paralelismo entre os tempos das histórias e os tempos reais em que foram escritas e posteriormente representadas nas telas.
- De modo geral, os livros apresentam um cariz pedagógico e mordaz, tendo como fundo a realidade rural brasileira; as adaptações televisivas enfatizam a fantasia e a aventura, ajustando a linguagem e a estética ao público contemporâneo.
Semelhanças
- A essência das personagens mantém-se: o Visconde é o intelectual, embora no audiovisual assuma também, por vezes, o papel de “cientista maluco”. Com o Tio Barnabé e a Tia Anastácia mantém-se o folclore e a mitologia. Dona Benta é a personagem protetora, que transmite conhecimento geral, e Emília é a tagarela opinativa, muitas vezes reconhecida como a consciência do autor.
- Permanece, nas duas obras, o diálogo entre a realidade quotidiana do campo e o mundo da fantasia; os seres humanos convivem e interagem com seres mitológicos e com personagens de contos clássicos da literatura mundial. Elementos mágicos, como pozinhos de perlimpimpim, atuam, naturalmente, no mundo real.
- Tanto os livros como as adaptações enaltecem o folclore nacional e valorizam as tradições da cultura e identidade brasileiras.
Para terminar, depois do livro e do filme, uma nota também para a música. Escrito e interpretado pelo músico Gilberto Gil, o tema de abertura da série da Rede Globo, de 1977, tornou-se um verdadeiro hino do universo infantil.

Aqui fica a letra:
Marmelada de banana
Bananada de goiaba
Goiabada de marmelo
Sítio do Pica-Pau Amarelo
Sítio do Pica-Pau Amarelo
Boneca de pano é gente
Sabugo de milho é gente
O Sol nascente é tão belo
Sítio do Pica-Pau Amarelo
Sítio do Pica-Pau Amarelo
Rios de prata piratas
Voo sideral na mata
Universo paralelo
Sítio do Pica-Pau Amarelo
Sítio do Pica-Pau Amarelo
No país da fantasia
Num estado de euforia
Cidade Polichinelo
Sítio do Pica-Pau Amarelo
Sítio do Pica-Pau Amarelo
Alexandra Maria Duarte
Fontes:
SOUZA, Warley. “Sítio do pica-pau Amarelo”; Brasil Escola.
http://www.intercom.org.br/papers/regionais/sul2007/resumos/R0208-1.pdf
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