
No panorama da literatura infantil em língua galega, Erin e o lobo, de Érica Esmorís, emergiu como a obra vencedora do XL Premio Merlín de Literatura Infantil. Este galardão, um dos mais respeitados na literatura infantojuvenil em língua galega, reconhece, em 2025, um livro que combina fantasia, profundidade emocional e imaginação poética para leitores a partir dos 11–12 anos.
Uma síntese envolvente da narrativa
A história acompanha Erin, uma menina que vive isolada no fundo de um bosque numa cabana construída pelos seus pais, sem nunca ter visto uma cidade, um colégio ou outras crianças. Um dia, ao receber um livro velho do pai e lê-lo em voz alta, ela desencadeia um feitiço que transforma o próprio bosque — e a si própria — numa espécie de magia viva.
Erin torna-se parte do bosque, e as suas palavras passam a tocar criaturas diversas — desde o raposo ao reiseñor, do olmo à flor silvestre… e também Noite, um lobo de pelagem azul e coração escuro, condenado à solidão da sua cova.
A narrativa contrasta luz e escuridade, vida e medo, e explora temas de pertença, redenção e o poder das palavras — desde o simples “Había unha vez” até ao impacto profundo de contar e partilhar histórias.
Por que ganhou o Prémio Merlin?
Segundo o júri dos prémios, Erin e o lobo destaca-se pela intensidade emocional e pela forma como aborda temas universais como a conexão com a natureza, a criação de raízes e o poder do amor — elementos que lhe valeram o reconhecimento máximo no Premio Merlin 2025.
A própria autora descreve a obra como uma história em que a verdadeira pertença não surge da luta, mas da escuta e do amor — uma mensagem que atravessa as páginas e que justifica o aplauso crítico.
Análise crítica: magia e significado

Força da linguagem e simbolismo
Um dos pontos mais fortes do livro é a maneira como as palavras são tratadas como entidades vivas. Não são apenas ferramentas de comunicação: são agentes de transformação que alteram o mundo físico e emocional dos personagens. Esta abordagem metafórica eleva a obra para além de uma simples fábula infantil, aproximando-a de narrativas clássicas de magia e criação.
Relação com a natureza
A integração da protagonista com o bosque e as criaturas que nele habitam oferece uma leitura ecológica e sensível que ressoa tanto com leitores jovens como com adultos. A autora não romantiza apenas o meio natural — ela também explora, com delicadeza, a tensão entre isolamento e comunidade.
Personagens e dualidades
A relação entre Erin e o lobo Noite funciona como um espelho simbólico: luz e escuridão, infância e experiência, medo e confiança. Esta dualidade é trabalhada com sensibilidade, sem cair em clichés fáceis, o que dá profundidade à narrativa e convida à reflexão.
Estrutura e acessibilidade
Com cerca de 152 páginas e uma linguagem acessível em galego, o livro é ideal para leitores em transição — aqueles que já dominam a leitura mas procuram histórias com maior ressonância emocional.
Erin e o lobo é, acima de tudo, uma celebração do poder transformador das histórias. A sua vitória no Prémio Merlin 2025 confirma que há um lugar vibrante para a fantasia, a reflexão e a poesia no panorama atual da literatura infantil. Mais do que um conto de magia, esta obra propõe uma viagem ao coração do que significa encontrar um lugar no mundo — e entender que, muitas vezes, isso começa com uma simples frase: “Había unha vez”.


