
Antes de publicar A História Interminável (1979), Michael Ende já havia escrito uma das mais inquietantes parábolas do século XX: Momo (1973). Se o romance de 1979 nos fala da imaginação como força criadora, Momo interroga algo ainda mais precioso — e mais frágil: o tempo. Mas não o tempo dos relógios. O tempo vivido.
Uma menina que sabia escutar
Momo é uma criança misteriosa que vive nas ruínas de um anfiteatro. Não tem pais conhecidos, não possui bens, não tem estatuto social. E, no entanto, possui um dom raro: sabe escutar. Quando as pessoas falam com Momo, tornam-se mais claras para si próprias. Conflitos resolvem-se. Ideias surgem. A vida ganha forma. Num mundo ruidoso, Momo representa a escuta profunda — aquela que exige presença e disponibilidade. Ende constrói aqui uma das mais belas defesas literárias da atenção como gesto ético.
Os Homens Cinzentos e o banco do tempo
A harmonia da pequena comunidade é ameaçada pela chegada dos enigmáticos “Homens Cinzentos”, agentes de um Banco do Tempo. Eles convencem as pessoas a “poupar tempo” — trabalhar mais, falar menos, eliminar pausas, reduzir encontros. O resultado é paradoxal: quanto mais tentam economizar tempo, menos tempo têm. A metáfora é transparente e perturbadora. Momo foi escrito numa década marcada pela aceleração económica e tecnológica. Meio século depois, a crítica de Ende parece quase profética. Vivemos numa cultura de produtividade permanente. Medimos valor em eficiência. Transformamos minutos em moeda.
Mas o que acontece quando o tempo deixa de ser experiência e passa a ser mercadoria?
Uma fábula contra a pressa
O génio de Momo está na simplicidade aparente da narrativa. A história é acessível a leitores jovens, mas carrega uma densidade filosófica notável. O tempo, na obra, não é apenas duração cronológica — é qualidade de presença. Quando as pessoas deixam de conversar, brincar, imaginar, contar histórias, o tempo empobrece. A intervenção de Momo não é heroica no sentido tradicional. Ela não combate com armas nem discursos grandiosos. Resiste pela fidelidade ao essencial: a amizade, a escuta, a lentidão partilhada. É uma heroína da delicadeza.
Literatura infantil como crítica cultural
Tal como noutras obras de Michael Ende, Momo desmonta a ideia de que a literatura para a infância deve limitar-se ao entretenimento ou à moral simplista. Aqui encontramos uma crítica sofisticada ao capitalismo do tempo, à alienação, à burocratização da vida e à erosão das relações humanas. O livro recebeu o Prémio Alemão de Literatura Juvenil e consolidou Ende como um autor capaz de unir imaginação, simbolismo e pensamento crítico.
Porque continua a importar?
Num tempo em que falamos de “gestão de tempo”, “otimização”, “multitasking” e “performance”, Momo é quase subversivo. Propõe algo radical: Parar. Escutar. Estar. Lembra-nos que o tempo não é algo que se acumula — é algo que se vive. E que o verdadeiro desperdício talvez não seja “perder tempo”, mas perder a capacidade de o saborear.
Na Casa do João, onde defendemos a literatura como espaço de reflexão e transformação, Momo permanece um livro urgente. Não apenas para crianças. Mas para todos os que sentem que os dias correm demasiado depressa e que, algures entre compromissos e ecrãs, se extraviou algo essencial. Talvez seja precisamente isso que Momo nos devolve: o tempo humano.
João Manuel Ribeiro


