O que faz de um livro infantil um bom livro?

Há quem diga que um bom livro infantil é aquele que a criança lê até ao fim. Outros dirão que é o que ensina valores, amplia vocabulário ou ajuda a adormecer. Há ainda quem confunda “bom livro infantil” com “livro útil”, “livro pedagógico” ou “livro apropriado”. Mas um bom livro infantil é, antes de tudo, um bom livro — e isso muda tudo.

Um bom livro infantil não nasce da condescendência. Não fala de cima para baixo, não simplifica o mundo até o tornar falso, não subestima a inteligência, a sensibilidade ou a capacidade de espanto da criança. Pelo contrário: confia nela. Confia que a criança é leitora inteira, curiosa, exigente, capaz de rir, de se comover, de perguntar e de não perceber tudo — porque não perceber tudo também faz parte da leitura.

Literatura antes de intenção

Um bom livro infantil não começa com uma moral, um objetivo ou uma mensagem. Começa com uma necessidade de contar. Uma história que pede para existir. Um poema que pede para ser dito. Quando a intenção pedagógica vem antes da literatura, o livro perde fôlego. Quando a literatura vem primeiro, o resto — valores, perguntas, aprendizagens — acontece naturalmente.

As crianças percebem isso. Percebem quando um livro quer convencê-las de alguma coisa. E também percebem quando um livro lhes oferece algo mais raro: uma experiência estética, uma emoção verdadeira, um lugar onde podem entrar e ficar um pouco.

A linguagem importa (muito)

Num bom livro infantil, a linguagem não é neutra. Há ritmo, imagens, humor, silêncio. Há palavras escolhidas com cuidado, frases que pedem para ser lidas em voz alta, repetições que criam música. Mesmo nos livros mais simples, sente-se um trabalho consciente com a língua.

Não é preciso usar palavras difíceis para escrever bem para crianças. Mas é preciso respeitar a língua e respeitar o leitor. Um bom livro infantil não empobrece a linguagem: alarga-a.

Texto e ilustração: um diálogo, não uma legenda

No caso do álbum ilustrado, um bom livro infantil é aquele em que texto e imagem dialogam, se desafiam, se completam. A ilustração não serve para explicar o texto, nem o texto para descrever a imagem. Entre ambos há espaço para o leitor pensar, imaginar, construir sentido.

É nesse espaço — entre o que se diz e o que se mostra — que muitas vezes nasce o prazer da leitura.

Um livro que cresce com quem o lê

Um bom livro infantil não se esgota numa leitura. Pode ser lido muitas vezes, em idades diferentes, por leitores diferentes. Hoje provoca riso, amanhã levanta perguntas, mais tarde desperta nostalgia. É um livro que cresce com a criança, e que muitas vezes acompanha o adulto em que ela se torna.

Talvez seja por isso que os bons livros infantis também são livros para adultos. Não porque escondam mensagens cifradas, mas porque falam do essencial: medo, amizade, perda, alegria, identidade, liberdade.

Então, o que faz de um livro infantil um bom livro?

Faz-lhe bem a literatura.

Faz-lhe bem a honestidade.

Faz-lhe bem a confiança no leitor.

E, acima de tudo, faz-lhe bem não esquecer isto: a infância não é um ensaio para a vida — é vida inteira.

João Manuel Ribeiro

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