Como Escolher o Livro Certo

O Guia Definitivo para Despertar a Magia da Leitura

Já te aconteceu? Entrar numa livraria ou folhear o nosso catálogo online, ver aquele mar de capas coloridas e sentir aquela dúvida: “Será que este é o livro certo para o meu filho(a)?”

Eu enfrentava esse problema regularmente. Não me posso esquecer do desgostoso dia em que fui a uma livraria e comprei um best-seller que me foi muito recomendado. A minha pequena irmã ignorou-o com sucesso. O livro ainda lá está na prateleira, poeirento. Não era um problema de qualidade, era um problema de ligação.

Escolher o livro certo é criar um encontro mágico entre a criança e a história. É a chave para transformar o ato de ler numa paixão que dura. Nem sempre temos a possibilidade de ser um mediador de leitura; por vezes, a criança tem que estabelecer por si essa conexão e ler. Mas como podemos fazer isto?

Nós, na Trinta por uma Linha, vivemos e respiramos literatura infantil. Por isso, compilei os 5 passos que aprendi a usar para garantir que cada livro que escolhes se torna o favorito da noite.

Passo 1: Começa pelo Coração – A Criança é a Tua Bússola

Esquece, por um momento, a idade que está na contracapa. O primeiro passo é o mais pessoal: observar.

Imagina que a tua criança está fascinada por dinossauros. Se lhe deres um livro sobre princesas, a leitura será forçada. Mas se lhe deres uma história ilustrada sobre um Tiranossauro-Rex curioso? Conexão imediata.

O livro certo é, inicialmente, um espelho dos seus interesses. (Para os pequenos curiosos fãs desse tópico, brevemente iremos lançar um livro sobre dinossauros!)

Primeiro, precisas conhecer os temas de interesse: O que é que ela mais pede para brincar? De que desenhos gosta? Usa esses temas como ponto de partida. Se o livro for sobre algo que ela gosta, a leitura é garantida!

Apoia o Crescimento: O teu filho(a) está a aprender a partilhar? Está com medo de começar na escola? Há livros fantásticos que abordam estas “grandes emoções pequenas” e que a ajudam a processar o mundo. O livro tanto pode ser uma ferramenta de entretenimento como também uma ponte educacional!

Passo 2: O Triângulo de Ouro: Texto, Imagem e Qualidade

Como editora, alerto-te: o livro infantil é uma obra de arte dupla. A força do texto deve ser igual à beleza da ilustração. Cada faixa etária tem as suas belezas e características. Aqui vão elas:

Faixa Etária (Aproximada) VS O que a Trinta por uma Linha Avalia

0 – 3 anos (Sensorial)

O ritmo da linguagem (poesia, musicalidade), o contraste das cores e a segurança do material (sem pontas bicudas ou papel que possa cortar).

4 – 6 anos (Imaginativo)

A capacidade de a imagem ir além do texto. O texto deve ter humor, rima e mistério simples. Nesta categoria, as ilustrações são muito importantes. Pressupõe-se que a criança ainda não lê e procura entender/imaginar através do visível.

7+ anos (Leitor em Formação)

Aqui a ilustração ainda desempenha um grande papel, porém é estabelecida uma maior complexidade da narrativa. Com complexidade não me refiro a qualidade superior. O livro infantil pode ser simples e igualmente excecional! Aqui vemos também a profundidade dos temas (amizade, ética, conhecimento).

Dica do Especialista: Um livro é de qualidade quando a ilustração não apenas decora a página, mas sim adiciona informação à história que as palavras não contam.

Porém, peço que não levem esta tipologia à risca. Livros infantis também podem ser apreciados por adultos, o reverso não acontece. Essa é a beleza do livro infantil. Se o teu pequeno tem 9 anos, mas demonstrou interesse por um livro classificado como de 6 anos, deixa-o ler e conhecer! O objetivo aqui é introduzir a leitura por gosto, vamos construir isso primeiro.

Passo 3: Rompe a Bolha: Variedade é o Tempero da Leitura

Se só comeres pão, não saberás como é o sabor do bolo. O mesmo se aplica à leitura. Muitos pais focam-se apenas em histórias, mas o mundo literário é vasto!

Eu recomendo fortemente poesia. Como adulto, está tudo bem em não gostar deste género literário, porém o mesmo não se aplica aos pequenos. É o ginásio da linguagem. O ritmo e a rima são essenciais para o desenvolvimento auditivo e da consciência fonológica. Para além disso, a rima e a musicalidade são comprovadas como alguns dos melhores métodos de aprender e causar interesse. Aproveita esse fator!

Por outro lado, se a tua criança é curiosa pelo mundo que a rodeia, os livros de Não-Ficção/Informativos devem ser considerados por ti. Os famosos “Mas porquê?” deixam de existir aqui. Um livro sobre o sistema solar ou o corpo humano transforma essa curiosidade em conhecimento e leva a criança a compreender que a leitura é, de facto, útil.

Entre os livros marginalizados, gostaria de dar especial ênfase no livro-álbum, conhecido também por picture book. São livros com poucos textos, alguns até sem a sua presença. Estes são mestres no estímulo da criatividade. O enredo é criado pela criança e pelo adulto, reforçando a comunicação e a imaginação de forma pura. É interpretar pela ilustração.

Este tipo de livro é um dos mais aclamados pelos críticos literários atualmente, mas aparenta um senão: requer, por norma, um mediador entre o livro e a criança. Se desejas que a leitura possa ser realizada de forma individual, recomendo que invistas no pensamento crítico e na criatividade, para assim, o livro-álbum poder ser lido na sua plenitude.

O Livro que Se Torna Memória

Quando o teu filho(a) for adulto e se deparar com a estante de livros da sua infância, ele não se lembrará apenas dos títulos que lhe deste. Lembrar-se-á, sim, de uma pequena história que conhece bem.

Uma vez, uma menina (hoje uma assistente editorial) contou-me que o seu livro de infância favorito não era o mais premiado ou conhecido, mas sim aquele que a sua mãe lhe tinha deixado escolher numa feira do livro que há muito deixou de existir. Era um livro de contos que podiam ser lidos em minuto e meio, como o título prometia. Anos mais tarde, a capa está gasta, as páginas não são mais retas e brancas, mas o sentimento de poder escolher e de ser ouvida é eterno.

Essa menina sou eu, e digo, como quem trabalha com livros infantis e como quem já teve a experiência de os vender, não ao verdadeiro leitor, mas aos seus pais: o livro certo não é aquele que é perfeito, mas sim aquele que se encontra contigo no momento exato, criando uma memória afetiva que te liga eternamente ao poder de um bom livro.

Cristiana Nunes

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