
Daniel Pennac ocupa um lugar singular na literatura infantojuvenil europeia. Sem nunca escrever para crianças no sentido redutor do termo, escreveu sempre com as crianças — e, talvez mais importante, contra a ideia de que a literatura para os mais novos deve ser simples, edificante ou previsível. A sua obra desafia convenções, ri-se da autoridade excessiva e defende, com convicção quase militante, o prazer de ler como um direito fundamental.
A criança no centro — mas nunca domesticada
Nos livros infantojuvenis de Pennac, a criança não é um adulto em miniatura nem um ser em formação que precisa de lições claras. É um sujeito pleno, contraditório, irreverente, curioso e, muitas vezes, desconfiado do mundo adulto. As suas personagens jovens pensam demais, perguntam demais e raramente aceitam respostas fáceis. É aí que reside grande parte da força da sua escrita: no respeito radical pela inteligência do leitor.
A série Kamo: aprender é um ato de resistência
A série protagonizada por Kamo é talvez o melhor exemplo da poética infantojuvenil de Pennac. Em livros como Kamo, l’agence Babel ou Kamo et moi, a escola surge como espaço de conflito, mas também de descoberta e amizade. Aprender línguas, ler clássicos, escrever cartas ou simplesmente compreender o outro são atos que ganham contornos de aventura — e, por vezes, de subversão.
Kamo não é um herói exemplar. É irónico, impaciente, por vezes arrogante. Mas é precisamente essa imperfeição que o torna tão próximo do leitor. Pennac mostra que crescer implica errar, desconfiar, discutir e, sobretudo, escolher.
Humor, ritmo e oralidade
Um dos traços mais marcantes da obra de Pennac é o humor — um humor inteligente, por vezes absurdo, frequentemente terno. A oralidade da sua escrita, marcada por diálogos vivos e narradores cúmplices, aproxima o texto da voz falada e convida à leitura em voz alta. Este ritmo ágil, quase teatral, é um dos segredos da sua enorme adesão junto de leitores jovens (e menos jovens).
O direito de não gostar de ler (e de acabar por gostar)
Embora Comme un roman não seja um livro infantojuvenil stricto sensu, a sua influência atravessa toda a obra de Pennac para jovens leitores. A célebre enumeração dos “direitos imprescritíveis do leitor” — incluindo o direito de não ler, de saltar páginas ou de reler — funciona como manifesto ético e pedagógico que sustenta a sua ficção.
Nos seus livros para crianças e adolescentes, a leitura nunca é uma obrigação moral. É um encontro possível, por vezes improvável, mas sempre livre. Pennac sabe que ninguém se apaixona por um livro por decreto.
Entre a ternura e a rebeldia
A literatura infantojuvenil de Daniel Pennac equilibra-se num fio delicado entre ternura e rebeldia. Há nela uma profunda empatia pelas fragilidades da infância e da adolescência, mas também uma crítica clara às instituições que tentam normalizar o pensamento, o comportamento e a imaginação.
Ler Pennac é descobrir que a literatura pode ser simultaneamente divertida e exigente, leve e profunda. É perceber que crescer não é perder a capacidade de perguntar — e que os livros certos ajudam, justamente, a mantê-la viva.
Um autor para leitores de todas as idades
Talvez o maior mérito da obra infantojuvenil de Daniel Pennac seja este: os seus livros não têm idade fixa. Funcionam como escadas móveis — lidas de uma forma aos dez anos, de outra aos quinze, e ainda de outra quando regressamos a elas na idade adulta.
Num tempo em que a leitura compete com múltiplas distrações, Pennac continua a lembrar-nos do essencial: ler é um ato de liberdade, e a boa literatura infantojuvenil não prepara apenas leitores — prepara pessoas.
Acrescenta resenhas a alguns dis seus livros
Claro. Seguem resenhas breves de alguns dos livros infantojuvenis mais marcantes de Daniel Pennac, integradas no espírito da sua obra — sem moralismos, com humor e confiança absoluta no leitor.
Resenhas de obras infantojuvenis de Daniel Pennac

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Kamo, l’agence Babel
Neste livro inaugural da série, Kamo aceita um desafio improvável: aprender inglês em três meses através de correspondência com uma misteriosa rapariga inglesa. O que começa como um exercício escolar transforma-se numa intriga cheia de humor, suspense e jogos linguísticos.
Pennac faz da aprendizagem um território de aventura, mostrando que estudar pode ser um ato criativo e até perigoso — sobretudo quando envolve amizade, identidade e curiosidade pelo outro. Um livro que desmonta a ideia de que aprender línguas é aborrecido e mecânico.
Kamo et moi
Narrado por um amigo de Kamo, este livro aprofunda a dinâmica da amizade e da memória. O narrador observa, comenta e, por vezes, tenta compreender o comportamento imprevisível de Kamo, criando um jogo subtil entre quem conta e quem age.
É um livro sobre crescer ao lado de alguém mais audaz, mais rápido, mais indomável — e sobre o modo como essas figuras nos moldam. Pennac escreve aqui uma homenagem discreta à amizade como espaço de formação emocional e intelectual.
L’œil du loup (O Olho do Lobo)
Um dos livros mais poéticos e universais de Pennac. Num jardim zoológico, um rapaz e um lobo trocam olhares — e, através desse encontro silencioso, partilham histórias de vida.
O lobo narra a sua infância no Alasca; o rapaz, a sua errância por África. As fronteiras entre humano e animal dissolvem-se, e o leitor é convidado a exercer empatia radical.
É um livro sobre exílio, sobrevivência e memória, escrito com uma simplicidade enganadora e uma carga simbólica profunda. Um clássico absoluto da literatura infantojuvenil contemporânea.
Cabot-Caboche
A história de um cão que aprende, cedo demais, a dureza do mundo humano. Vendido, explorado e abandonado, Cabot-Caboche atravessa várias formas de violência até encontrar uma criança que o trata com respeito.
Pennac constrói um relato duro, mas nunca cruel, sobre abuso de poder, fidelidade e dignidade. Ao escolher o ponto de vista do animal, obriga o leitor a confrontar comportamentos humanos naturalizados.
Um livro que não protege em excesso o leitor jovem — e que, por isso mesmo, o respeita.
(Menção) Monsieur Ibrahim et les fleurs du Coran
Embora frequentemente lido por adultos, este livro é muitas vezes descoberto na adolescência. A relação entre Momo, um rapaz judeu, e Monsieur Ibrahim, um merceeiro muçulmano, constrói-se com humor, delicadeza e silêncio.
Mais do que uma lição sobre tolerância, é um livro sobre transmissão afetiva, escuta e a possibilidade de escolher a própria família. A escrita contida e luminosa torna-o especialmente marcante para leitores jovens em transição.
Em síntese
As resenhas confirmam aquilo que atravessa toda a obra infantojuvenil de Daniel Pennac:
- confiança absoluta no leitor,
- recusa do didatismo fácil,
- defesa da leitura como experiência livre,
- e uma literatura que não simplifica o mundo — ajuda a habitá-lo.


