
Há livros que não se leem: vivem-se.
A literatura infantil e juvenil é isso mesmo — uma casa onde as crianças entram descalças, com o espanto nos olhos e o tempo todo à frente.
Não serve apenas para ensinar a ler melhor; serve para ensinar a estar no mundo.
Quando uma criança escuta uma história, não está só a seguir palavras em fila. Está a aprender a esperar, a imaginar, a sentir o que sente o outro.
Um livro é um ensaio geral da vida: ali pode errar sem consequências, ter medo com segurança, ser corajosa sem risco.
A literatura infantil e juvenil constrói vocabulário, sim, mas constrói sobretudo interior — esse lugar onde mais tarde cabem as perguntas difíceis, as emoções confusas e os silêncios necessários.
Num tempo apressado, em que tudo pisca e desaparece, o livro pede o contrário: atenção, pausa, presença. Ler com uma criança é um gesto simples e profundamente revolucionário. É dizer: estou aqui contigo, sem notificações, sem pressa, sem distrações.
É por isso que a leitura em família não deve ser vista como uma obrigação escolar, mas como um ritual quotidiano, tão essencial como a refeição partilhada ou o beijo de boa-noite.
E como levar os livros para dentro da vida familiar, de forma prática e poética?
- Criar um tempo fixo de leitura: dez ou quinze minutos por dia chegam. Antes de dormir, depois do jantar, ao fim de semana de manhã. A regularidade transforma o livro em abrigo.
- Ler em voz alta, mesmo quando a criança já sabe ler: a voz do adulto dá ritmo, emoção e segurança. E ouvir histórias continua a ser uma necessidade, não um retrocesso.
- Conversar sobre a história sem fazer “fichas”: perguntar “o que farias tu?”, “qual foi a parte mais estranha?”, “quem gostavas de ser?”. As perguntas abertas prolongam o livro para fora das páginas.
- Brincar a partir do livro: desenhar uma personagem, inventar um final diferente, dramatizar uma cena com fantoches improvisados, construir um mapa dos lugares da história. A leitura também se faz com o corpo e com as mãos.
- Ligar os livros à vida real: se a história fala de amizade, observar amigos; se fala de medo, falar dos medos de casa; se fala de viagens, sonhar destinos. O livro torna-se espelho e janela.
- Dar exemplo: crianças que veem adultos a ler percebem, sem discursos, que os livros importam.
A literatura infantil e juvenil não forma apenas leitores competentes; forma pessoas mais atentas, mais empáticas, mais livres. Cada história lida em família é um pequeno fio lançado para o futuro — um fio invisível, mas resistente, que ajudará a criança a atravessar o mundo quando as palavras forem a única lanterna disponível.
E isso, convenhamos, é uma herança imensa para caber dentro de um livro pequeno.
João Manuel Ribeiro


