
Há autores que escrevem para crianças.
E há autores que escrevem com a infância inteira dentro deles.
Michael Ende (1929–1995) pertence claramente ao segundo grupo.
Filho de um pintor surrealista perseguido pelo regime nazi, Ende cresceu rodeado de imagens, símbolos e perguntas grandes demais para respostas simples. Talvez por isso nunca tenha acreditado numa literatura “menor” para leitores jovens. Para ele, a imaginação era uma coisa séria — tão necessária como o pão, tão vital como o ar.
A sua obra infantojuvenil é curta em quantidade, mas imensa em impacto. E no centro desse universo está um livro que mudou para sempre a forma como olhamos para a fantasia:
A História Interminável.
Um escritor contra a pressa e contra a superficialidade
Michael Ende escrevia devagar, contra a lógica do consumo rápido e das histórias descartáveis. Os seus livros recusam a moral fácil, o final óbvio, a lição explícita. Em vez disso, oferecem perguntas, labirintos, espelhos.
Nas suas histórias:
- a fantasia não serve para fugir da realidade,
- serve para a compreender melhor;
- a imaginação não é um luxo infantil,
- é uma força de resistência.
Ende acreditava que uma sociedade que perde a capacidade de imaginar está condenada a aceitar tudo como inevitável.

A História Interminável: um livro dentro de um livro (e dentro de nós)
Publicado em 1979, A História Interminável é, à primeira vista, uma narrativa fantástica clássica: um reino ameaçado, uma criança escolhida, uma missão impossível. Mas basta começar a ler para perceber que este não é um livro comum.
Dois mundos, duas cores, um só leitor
A estrutura do livro é revolucionária:
- o mundo real, onde vive Bastian, um rapaz solitário e inseguro;
- o mundo de Fantasia, que está a ser destruído pelo Nada.
As edições originais usam duas cores de tinta, separando visualmente os dois planos narrativos. O leitor não só lê a história — entra nela.
E entra de tal forma que, a certa altura, percebe algo inquietante:
Fantasia está a morrer porque os humanos deixaram de sonhar.
Bastian: o herói improvável
Bastian Balthazar Bux não é corajoso, nem forte, nem confiante. É um leitor. E isso basta.
Ao contrário dos heróis tradicionais, Bastian não salva o mundo com uma espada, mas com:
- palavras,
- desejos,
- escolhas.
O problema é que desejar tem consequências.
Cada desejo realizado apaga uma parte da sua memória do mundo real.
Michael Ende coloca aqui uma das questões mais profundas da literatura para jovens:
O que acontece quando perdemos quem somos, mesmo enquanto realizamos os nossos sonhos?
Fantasia não é fuga — é responsabilidade
Um dos grandes mal-entendidos sobre A História Interminável é pensá-la como uma apologia da evasão. Na verdade, o livro diz exatamente o contrário.
Ende mostra que:
- fugir da realidade empobrece Fantasia;
- mas esquecer Fantasia destrói a realidade.
O equilíbrio entre imaginação e vida concreta é frágil — e essencial.
No final, Bastian só se torna verdadeiramente humano quando consegue regressar, trazendo consigo aquilo que aprendeu no mundo imaginário. A fantasia só faz sentido se nos ajudar a viver melhor.
Um legado que continua a crescer
Além de A História Interminável, Michael Ende deixou outras obras fundamentais:
- Momo, uma fábula filosófica sobre o tempo roubado;
- Jim Botão e Lucas, o Maquinista, uma celebração da amizade e da diferença.
Mas é A História Interminável que permanece como o seu coração literário — um livro que cresce com o leitor, que se relê em idades diferentes e nunca diz exatamente a mesma coisa.
Porque continua a ser indispensável hoje
Num tempo de ecrãs rápidos, narrativas simplificadas e distração permanente, Michael Ende lembra-nos algo essencial:
Sem imaginação, o mundo encolhe.
Sem leitores, a realidade empobrece.
A História Interminável não termina porque a pergunta que nos faz continua em aberto:
que histórias estamos dispostos a imaginar — e a viver?
E essa, felizmente, é uma pergunta que nenhuma idade esgota.


