
Cem anos a desenhar a infância
Hoje celebramos o centenário de uma das grandes figuras da ilustração europeia para a infância: Gerda Muller, nascida a 21 de fevereiro de 1926, em Naarden, nos Países Baixos. Cem anos depois, a sua obra continua viva — nas mãos das crianças, nas estantes das escolas e no olhar atento de quem acredita que a beleza também educa.
Desde muito jovem soube que queria desenhar para crianças. Formou-se na Escola de Belas-Artes de Amesterdão e mais tarde na L’École Estienne, em Paris. Não foi um caminho óbvio. Aconselharam-na a abandonar a ilustração infantil por ser “pouco rentável”. Mas Gerda Muller escolheu a fidelidade à vocação.
Essa decisão mudou o panorama da literatura infantil europeia.

📚 O encontro decisivo
Em 1951 conhece Paul Faucher, fundador da editora Pere Castor. A colaboração que então se inicia marca o verdadeiro arranque da sua carreira editorial.
Ao longo das décadas seguintes, Gerda Muller ilustraria mais de 120 livros, trabalhando com editoras como Flammarion, Ravensburger ou Floris Books.
Mas os números são apenas a superfície. O essencial está na coerência estética.
🌱 A natureza como casa
Entre os títulos mais emblemáticos destaca-se Un ano alrededor del gran roble, obra que acompanha o ciclo anual de um carvalho e a vida que o rodeia.

Os seus livros sobre as estações tornaram-se referência internacional. Não seguem modas nem recorrem à sobre-estimulação visual. Convidam à pausa, à observação, à escuta do mundo natural.
Gerda Muller não ilustra “ideias abstratas”; ilustra ritmos — o crescer das plantas, o mudar da luz, a vida quotidiana das crianças no campo e na cidade.
🎨 Técnica e sensibilidade
Lápis, aguarela, óleo, litografia, pastel: domina múltiplas técnicas. Mas o que distingue o seu trabalho é a combinação de precisão científica na observação, calor humano nas cenas, composição equilibrada e atenção minuciosa ao detalhe.
Cada imagem é habitada. Há vento nas folhas, passos na terra, respiração na paisagem.
Os seus livros ensinam a ver. E ver é o primeiro gesto de conhecimento.
👧 O leitor invisível
Perguntaram-lhe, há anos, por que nunca quisera dedicar-se a outra coisa. A resposta tornou-se quase um manifesto:
“Adoro a minha profissão e passei toda a minha vida a desenhar para crianças. Quando trabalho sozinha no meu estúdio, sinto a presença de uma criança que olha por cima do meu ombro e frequentemente me guia. É para essa criança que trabalho, não para os pais nem para as editoras.”
Esta declaração explica a coerência da sua obra: Gerda Muller desenha para um leitor real, curioso e atento — não para tendências de mercado.

A receção em Portugal
Em Portugal, a obra de Gerda Muller não tem circulação estável, não havendo nenhuma edição recente de qualquer dos seus livros (tanto quanto sabemos). O que é pena, porque a sua obra pode ser particularmente valorizada em contextos de educação pré-escolar, 1.º ciclo, projetos de educação ambiental e pedagogias que privilegiam o contacto com a natureza.
Num contexto educativo português cada vez mais atento à literacia científica e ecológica, os livros de Gerda Muller revelar-se-iam ferramentas educativas poderosas.
📖 Uma obra que cresce com o leitor
Os livros de Gerda Muller não se esgotam numa leitura. Transformam-se com a idade da criança. O que começa por ser descoberta visual torna-se depois consciência ecológica e memória afetiva.
Num panorama editorial frequentemente dominado pela velocidade e pelo excesso de estímulos, a sua obra lembra-nos que a infância precisa de tempo, verdade, beleza sem ruído.
🎂 Um centenário que é compromisso
Celebrar os cem anos de Gerda Muller é também reafirmar uma forma de fazer livros: respeitosa, atenta, duradoura.
Os seus livros não passam. Permanecem. E talvez essa seja a maior homenagem possível: continuar a colocá-los nas mãos das crianças — confiando que elas saberão ver o que ali pulsa.


