
A literatura juvenil galega voltou a brilhar em 2025 com a conquista do XVII Premio Jules Verne de Literatura Xuvenilpela obra O corvo sobre a neve, escrita por Andrea Maceiras. O galardão foi anunciado no âmbito dos Premios Xerais 2025 e celebrado numa cerimónia realizada no Museo do Mar de Galicia, em Vigo, onde a autora recebeu – juntamente com outras premiadas – o reconhecimento pelo trabalho que melhor representa a literatura juvenil em língua galega neste ano.
Uma narrativa que imagina um futuro possível
Publicado em outubro de 2025 pela Edicións Xerais, O corvo sobre a neve transporta o leitor para um mundo dominado por uma nova Idade Glacial. Neste universo distópico, os Países Temperados fecharam as fronteiras aos chamados “emigrantes climáticos”, deixando milhares de pessoas à mercê do frio e da miséria.
O protagonista, Dryas, vive isolado com a sua família, consciente de segredos que os pais guardam. Quando a mãe e o irmão desaparecem sem deixar rasto, ele vê-se forçado a fugir com o pai até ao limite da Zona Vedada. A sua única companhia é um corvo criado com a chamada “Tecnoloxía Eterna” e uma colecção de sete livros antigos de que ele, surpreendentemente, não é fã. Ao longo da jornada, Dryas descobre que os segredos deixam marcas e que a literatura pode ser, em certos momentos, a única forma de salvação possível.
Reconhecimento editorial e temático
O júri do Premio Jules Verne destacou o equilíbrio entre diferentes géneros — fantasia, ficção científica e aventura — que enriquecem a obra, bem como a capacidade da autora em usar uma linguagem lírica e ao mesmo tempo acessível para o público juvenil. Igualmente valorizada foi a exploração de temas sociais emergentes, como as consequências do clima em mutação, as migrações forçadas, a injustiça social e a presença de inteligência artificial como coprotagonista da narrativa.
Notas críticas
Ambientação e construção do mundo
Uma das maiores conquistas de O corvo sobre a neve é a construção de um mundo coerente e inquietante, onde a neve não é apenas cenário, mas personagem silencioso que molda comportamentos, hierarquias e emoções. A autora consegue, com poucas descrições, transmitir uma sensação constante de urgência e risco — traços fundamentais de uma boa distopia juvenil.
Personagens e simbolismo
Dryas, como protagonista, é um jovem que precisa crescer depressa num mundo que não perdoa na sua dureza. A sua relação com o corvo — criatura artificial com características quase míticas — funciona como um espelho das contradições humanas: medo e confiança, repúdio e dependência. O corvo torna-se símbolo do enigma entre natureza, tecnologia e memória, convidando o leitor a refletir sobre as ligações entre humanos e inteligência artificial.
Temática literária
Um dos aspectos mais interessantes da obra é o papel que os livros desempenham no desenvolvimento da ação e do protagonista. Mais do que objetos narrativos, os livros representam conhecimento, resistência e identidade num mundo onde as memórias e as histórias correm o risco de se perderem sob a neve. Esta lógica metaficcional — livros que salvam e transformam — confere à história uma dimensão que ultrapassa a mera aventura.
Estilo e acessibilidade
Maceiras combina uma prosa clara com momentos líricos que enriquecem a leitura sem a tornar inacessível. Esta clareza permite que O corvo sobre a neve seja acolhido tanto pelos leitores mais jovens que buscam uma narrativa empolgante quanto pelos adultos atentos à profundidade dos temas abordados.

O corvo sobre a neve afirma-se como uma das propostas mais sólidas da literatura juvenil galega recente — não apenas pelo prémio que recebeu, mas pela sua coragem em abordar questões contemporâneas através de uma ficção evocativa e sensível. Ao misturar realidade e fantasia, sobrevivência e esperança, Andrea Maceiras entrega uma obra que desafia, emociona e, acima de tudo, convida à reflexão sobre o mundo em que vivemos e aquele que podemos construir.


