
Na Casa do João, acreditamos em três coisas fundamentais: café quente, estantes cheias e leitores livres.
E foi precisamente essa liberdade que Daniel Pennac decidiu defender em Como um Romance — um pequeno grande manifesto que nos recorda algo revolucionário: ler não é uma obrigação moral.
Sim, pode respirar. Ninguém vai aparecer para fiscalizar a sua mesinha de cabeceira.
📖 1. O Direito de Não Ler
Comecemos pelo mais escandaloso.
O direito de não ler.
Vivemos numa sociedade que romantiza a produtividade até quando estamos a descansar. Se não estamos a ler um clássico russo com 900 páginas, parece que falhámos enquanto cidadãos cultos.
Pennac lembra-nos: a leitura não pode ser imposta.
Se é imposta, deixa de ser leitura e passa a ser tarefa.
Na Casa do João dizemos: o livro deve convidar, não convocar.
⏭ 2. O Direito de Saltar Páginas
Há livros maravilhosos.
E depois há capítulos que parecem atas de condomínio.
Saltar páginas não é heresia. É sobrevivência narrativa.
É confiar que o essencial continua lá — e que o autor nos perdoa (ou pelo menos não descobre).
Mais importante: este direito devolve ao leitor o controlo. O leitor não é refém da estrutura. É cúmplice da história.
🚪 3. O Direito de Não Acabar um Livro
Este é difícil. Somos educados para terminar o que começamos.
Mas terminar um livro que não nos diz nada é como ficar numa conversa interminável só por educação. A certa altura, é legítimo ir buscar “um copo de água” e nunca mais voltar.
Há milhares de livros à espera. Persistir por culpa é desperdiçar o bem mais precioso que temos: tempo.
🔁 4. O Direito de Reler
Reler é um ato de maturidade.
Quando voltamos a um livro, já não somos os mesmos. E ele também não — porque o significado nasce do encontro entre texto e leitor.
Reler é reencontrar frases que agora fazem mais sentido. Ou menos.
E perceber que crescemos.
(E também é confortável. Como aquele casaco que já devia ter sido substituído, mas não será.)
🌈 5. O Direito de Ler Qualquer Coisa

A literatura não é um concurso de elitismo.
Clássicos coexistem com policiais, romances leves, fantasia épica ou banda desenhada. O valor da leitura não está no prestígio da capa, mas no impacto que tem em quem lê.
O leitor não precisa de justificar o seu gosto.
Se aquele livro o prendeu até às três da manhã, então cumpriu a sua função.
💭 6. O Direito ao Bovarysmo
Nome pomposo para algo muito humano:
o direito de fugir da realidade.
Ler é experimentar outras vidas. É sofrer tragédias fictícias com intensidade real. É apaixonar-se por personagens que não existem (e sofrer mais por elas do que por certas pessoas reais).
Este direito é profundamente sério.
Porque a imaginação é uma ferramenta de empatia. Ao viver outras histórias, aprendemos a compreender outras perspetivas.
E isso, convenhamos, faz falta.
📍 7. O Direito de Ler em Qualquer Lugar
O livro é portátil. Democrático. Discreto.
Pode ser aberto na cama, no autocarro, numa sala de espera ou naquele intervalo estratégico do trabalho que ninguém comenta.
A leitura não exige cenário perfeito. Só disponibilidade interior.
📢 8. O Direito de Ler em Voz Alta
Há textos que pedem respiração. Ritmo. Som.
Ler em voz alta devolve ao texto a sua dimensão oral — quase teatral.
E às vezes ajuda-nos a perceber melhor o que estamos realmente a ler.
Além disso, é uma excelente forma de testar talentos dramáticos escondidos.
🤫 9. O Direito de Não Falar Sobre o Que se Leu
Nem todo o livro precisa de ser analisado como se estivéssemos num júri literário.
Às vezes a leitura é íntima. Silenciosa.
Fica connosco de uma forma que não sabemos explicar — e não somos obrigados a explicar.
O silêncio também é uma forma de interpretação.

📚 Ler é um Ato de Liberdade
O grande ensinamento de Daniel Pennac pode resumir-se numa ideia simples:
O verbo ler não suporta o imperativo.
Quando transformamos a leitura numa obrigação, matamos aquilo que a torna poderosa: o prazer, a curiosidade, a descoberta.
Na Casa do João, acreditamos que formar leitores não é impor listas infinitas, mas acender vontades.
Um leitor livre é um leitor que volta.
Um leitor forçado é alguém que foge.
Por isso, que os Direitos do Leitor não sejam apenas uma lista simpática, mas um compromisso:
ler por gosto, com liberdade, com humor — e com a seriedade que a imaginação merece.
João Manuel Ribeiro


