
Reportagem
No coração da literatura infantil contemporânea há vozes que não se limitam ao conto de fadas — mas que usam a imaginação como uma janela para as grandes questões do nosso tempo. Entre essas vozes, destaca-se a britânica Onjali Q. Raúf, cuja obra tem vindo a provocar, como poucos autores, reflexões profundas sobre empatia, justiça e humanidade através da literatura juvenil.
Da infância à escrita: a origem de uma urgência
Onjali Qatara Raúf nasceu em Inglaterra, em fevereiro de 1981, numa família de origem bengalesa. Cresceu em Londres e cedo experienciou o impacto do racismo — um episódio que recorda ter marcado a sua relação com a identidade e com os livros: “Percebi que não havia ninguém que se parecesse comigo nos livros que eu lia”, disse em entrevista ao The Guardian, reflectindo sobre como isso a levou a querer contar histórias que contassem “o outro lado”.
Antes de publicar o seu primeiro romance, trabalhou em diversas organizações de direitos humanos e fundou duas instituições: Making Herstory, para apoiar mulheres e meninas vítimas de abuso, e uma equipa de ajuda a refugiados que presta apoio direto em campos de refugiados na Europa.
O livro que mudou tudo: O Rapaz ao Fundo da Sala
A grande afirmação literária de Onjali Q. Raúf aconteceu com o romance juvenil O Rapaz ao Fundo da Sala (The Boy at the Back of the Class), publicado em 2018. O livro conta a história de Ahmet, um rapaz refugiado que se senta no fundo da sala de aula e cuja experiência pessoal se torna o centro de uma narrativa sobre amizade, inclusão e humanidade.
O impacto do livro foi imediato: venceu o Blue Peter Book Award para Melhor História e o Waterstones Children’s Book Prize, além de ter sido nomeado para o Carnegie Medal, entre outros reconhecimentos internacionais.
Críticos e leitores destacam a forma como Raúf combina uma narrativa acessível e emocionante com temas sociais complexos. Goodreads, por exemplo, descreve-o como uma história “contada com humor e coração”, que oferece uma perspectiva infantil sobre a crise dos refugiados e valoriza a empatia acima dos preconceitos. Outro comentário editorial sublinha a sua capacidade de inspirar crianças a pensar não só sobre bondade e amizade, mas também sobre justiça no mundo em que vivem.
Opiniões de leitores reforçam essa impressão: muitos destacam que o livro “estimula a leitura” e oferece “valores essenciais como inclusão” num enredo emocionante e curioso.
Projetos subsequentes e ampliação da temática
Após o sucesso de O Rapaz ao Fundo da Sala, Raúf não parou. Seguiram-se vários outros títulos juvenis que continuam a explorar temas sociais relevantes:
- O Herói do Autocarro Noturno, que fala sobre sem-abrigo e a possibilidade de transformação pessoal a partir da perspectiva de um antagonista convertido em herói.
- O Leão por Cima da Porta, que aborda a identidade e o racismo através da amizade entre crianças de origens diferentes.
- A Menina da Fila da Frente, um álbum ilustrado centrado em bondade e empatia, expandindo as ideias de inclusão a leitores mais jovens.
Além das ficções, Raúf nunca desligou as suas narrativas da sua atuação no mundo real: o trabalho humanitário junto de refugiados e a defesa dos direitos das mulheres e das crianças informam as suas histórias com autenticidade e urgência.

Entrevistas e reflexões da autora
Em entrevistas, Raúf fala abertamente sobre o objetivo de escrever “histórias que ajudem a formar leitores e a despertar consciências”. Ela sublinha que os temas que trata — crise dos refugiados, racismo, violência — não são escolha mas realidade que as crianças absorvem do mundo e que, através da literatura, se pode proporcionar um espaço seguro para compreender e questionar essas realidades.
Para ela, a literatura juvenil não é apenas diversão — é uma ferramenta para cultivar empatia e tolerância: “O dom da empatia … começa com histórias. São as nossas rampas de lançamento todos os dias”.
Crítica e impacto cultural
A crítica especializada concorda que a obra de Raúf se distingue por combinar temáticas profundas com uma voz narrativa acessível para crianças e adolescentes. Revisões profissionais elogiam seu equilíbrio entre realidade e esperança, ensinando lições de humanidade sem simplificações fáceis.
Há também adaptações teatrais do seu trabalho, como a versão de The Boy at the Back of the Class encenada no Reino Unido, que reforçam a forma como a história ressoa além dos livros para um público mais amplo, incluindo crítica teatral que valoriza sua mensagem de humanidade em tempos de polarização social.
Conclusão: uma voz para hoje e para sempre
Onjali Q. Raúf construiu, em pouco mais de uma década de carreira, uma obra literária que ultrapassa a linha entre entretenimento e responsabilidade social. Usando a imaginação de crianças como lente para observar o mundo, ela convida leitores de todas as idades a refletir sobre o que nos torna humanos: a capacidade de entender o outro, de estender a mão e de imaginar um mundo mais justo.
O legado literário de Raúf, portanto, não se mede apenas em prémios ou vendas, mas no impacto das suas histórias no desenvolvimento de leitores empáticos e conscientes — talvez o maior dos seus feitos.
Linha do tempo
Onjali Q. Raúf — literatura com urgência social

1981
Nascimento
Onjali Qatara Raúf nasce em fevereiro, em Inglaterra, numa família de origem bengalesa. A experiência de crescer entre culturas e de enfrentar episódios de racismo marcará profundamente a sua escrita e intervenção pública.
Anos 2000–2010
Ativismo e direitos humanos
Antes de publicar ficção, trabalha em organizações de direitos humanos e funda iniciativas como a Making Herstory, dedicada ao apoio a mulheres e raparigas sobreviventes de abuso, além de projetos de apoio a refugiados na Europa. Esta base ativista torna-se o alicerce temático da sua obra literária.
2018
Estreia literária — The Boy at the Back of the Class
Publica o romance juvenil que a torna internacionalmente conhecida. A história de Ahmet, um menino refugiado, é narrada a partir do olhar dos colegas de escola, privilegiando empatia, amizade e ação coletiva. O livro recebe o Blue Peter Book Award e o Waterstones Children’s Book Prize, entre outros prémios, e passa a ser leitura recomendada em muitas escolas britânicas.
2019
Consolidação e debate público
O livro continua a gerar debate em meios educativos e críticos. Entrevistas da autora sublinham a ideia de que “as crianças já vivem rodeadas de notícias duras” e que a literatura pode oferecer ferramentas para as compreender.
2020
Publicação de The Night Bus Hero
Um novo romance juvenil que aborda a realidade das pessoas em situação de sem-abrigo, desafiando estereótipos ao acompanhar a transformação de um protagonista inicialmente antipático. A crítica destaca a coragem de tratar temas sociais complexos sem perder humor nem esperança.
2021
Expansão temática — The Lion Above the Door
Neste livro, Raúf explora identidade, herança cultural e racismo através da amizade entre crianças. Leitores e recensões salientam a delicadeza com que o passado colonial e a pertença são apresentados a jovens leitores.
2022
Luto, memória e família — The Star Outside My Window
Inspirado na morte do pai da autora, o romance aborda o luto infantil e a saúde mental, ampliando o alcance emocional da sua obra. É elogiado pela crítica pela honestidade e pela escrita sensível.
2023–2024
Adaptações e impacto cultural
The Boy at the Back of the Class é adaptado para teatro no Reino Unido, recebendo críticas positivas por manter a força emocional e política do texto original. Raúf passa a ser presença regular em festivais literários e debates sobre educação, leitura e cidadania.
Em síntese
A linha do tempo de Onjali Q. Raúf revela uma obra curta em anos, mas intensa em impacto: cada livro responde a uma ferida aberta do mundo contemporâneo — refugiados, pobreza, racismo, luto — sempre filtrada por uma escrita acessível às crianças e profundamente exigente para os adultos.



