Pelo sonho é que vamos

Há versos que não pedem licença para entrar. Instalam-se. Ficam.

O de Sebastião da Gama é assim: “Pelo sonho é que vamos.”

Não explica, não argumenta, não prova — aponta. E, ao apontar, abre um caminho. Na infância, esse caminho é quase tudo.

A criança vive num território onde o real ainda não fechou as portas.

Sonha acordada, sonha a brincar, sonha a ouvir histórias.

Como escreveu Sophia de Mello Breyner Andresen, “a criança é o ser que ainda está perto do princípio”.

E no princípio, sabemos, estava o verbo — mas estava também o espanto.

Os sonhos não são, na infância, uma fuga do mundo.

São uma forma de o experimentar por inteiro. Sonhar é ensaiar. É experimentar futuros possíveis sem medo do erro. É aprender a cair sem se magoar.

“O sonho comanda a vida”, escreveu António Gedeão, e talvez por isso a infância seja o tempo em que a vida mais obedece.

Quando uma criança diz “quando for grande quero ser…”, não está a fazer um plano de carreira.

Está a escrever um poema em prosa sobre si própria.

Fernando Pessoa, que levou a sério como poucos a arte de sonhar, lembrou-nos: “Tudo vale a pena se a alma não é pequena.” A alma da criança ainda não aprendeu a encolher.

É nos sonhos que a imaginação cria anticorpos contra a resignação.

Por isso, tirar sonhos a uma criança — com excesso de pragmatismo, de pressa, de medo — é roubar-lhe uma ferramenta essencial.

Como avisava Mia Couto, “o que faz andar o barco não é a vela enfunada, mas o vento que não se vê.” Os sonhos são esse vento invisível.

A literatura infantil sempre soube isto. Lewis Carroll pôs uma menina a cair num buraco para provar que crescer também pode ser um exercício de absurdo.

Saint-Exupéry lembrou-nos, pela voz do Principezinho, que “o essencial é invisível aos olhos” — e raramente é invisível ao sonho.

Sonhar, na infância, é também um gesto de resistência.

Num mundo que cedo pede resultados, os sonhos defendem o direito à demora, ao erro bonito, à pergunta sem resposta.

“Há sempre alguém que resiste, há sempre alguém que diz não”, escreveu Manuel Alegre. A criança sonhadora diz não ao mundo fechado.

Pelo sonho é que vamos, repete o verso, como um refrão antigo.

Vamos porque o sonho empurra.

Vamos porque o sonho chama.

E talvez a verdadeira tarefa dos adultos não seja ensinar as crianças a sonhar — elas já sabem —, mas aprender a não atrapalhar esse movimento delicado.

Porque, no fundo, como escreveu Sebastião da Gama noutro momento luminoso, “há palavras que são como um abraço”.

E o sonho, na infância, é isso mesmo: um abraço aberto ao futuro.

João Manuel Ribeiro

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